LETRAS LUSAS: "Apresentação do Rosto", de Herberto Helder
Editora: Porto Editora
Sinopse: «Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
[…]»
"Apresentação do Rosto" foi publicado originalmente em 1968, tendo a obra sido imediamente apreendida pela censura, não voltando a ser editada. Esta reedição, pela Porto Editora, surge com alterações feitas pelo autor num exemplar que tinha em sua posse e que só foi descoberto pela família após a sua morte, em 2015.

Herberto Helder nasceu em 1930, no Funchal, onde concluiu o 5.º ano. Em 1948 matriculou-se em Direito, mas cedo abandonou esse curso para se inscrever em Filologia Românica, que frequentou durante três anos. Teve inúmeros trabalhos e colaborou em vários periódicos como A Briosa, Re-nhau-nhau, Búzio, Folhas de Poesia, Graal, Cadernos do Meio-dia, Pirâmide, Távola Redonda, Jornal de Letras e Artes. Em 1969, trabalhou como director literário da editorial Estampa. Viajou pela Bélgica, Holanda, Dinamarca e, em 1971, partiu para África onde fez uma série de reportagens para a revista Notícias. Em 1994 foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa, que recusou. Faleceu em Cascais, a 23 de Março de 2015, tinha 84 anos.
