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14
Dez11

NOVOS TALENTOS - Lagaet

 

Há focos de luzes azuis a varrer a sala de espectáculos do Circo Nikulin, em Moscovo, na Rússia. Na arena central, dois rapazes enfrentam-se, olhos nos olhos, em movimentos gingões. O público grita "go, go, go, go", num compasso ritmado com a música hip hop, que sai dos pratos de um DJ, em alto volume. Calças e camisola cinzenta, ténis azuis e verdes, Lagaet é o primeiro a avançar. Num gesto desafiador, tira o boné da cabeça e começa a dançar. Mais depressa do que conseguimos acompanhá-lo, roda as pernas, apoia as mãos no chão e já está suspenso no ar, apenas apoiado na cabeça e no dedo indicador. Dança, alinhado com os beats da música, rodopia, dá saltos em cima de uma das mãos, voltas sobre o corpo, de pernas esticadas no ar. Continua em movimentos quase impossíveis de descrever, como se fosse um boneco articulado, o corpo transformado em borracha e a desafiar as leis da gravidade. Lá fora, estão dois graus abaixo de zero, mas, dentro deste histórico circo moscovita, fundado em 1880 e entretanto baptizado com o nome do palhaço que ali actuou em meados do século XX, Yury Nikulin, transpira-se, sob um calor abrasador.

 

Lagaet Alin tem 23 anos e, apesar do nome não o indicar, foi o representante de Portugal no Red Bull BC One, o mais importante campeonato mundial de bboying, um género de dança da cultura hip hop, nascida nas ruas dos subúrbios de Nova Iorque, nos anos 70, entre as comunidades afro-americana e hispânica. Foi em Moscovo que se enfrentaram, a 26 de Novembro, os 16 melhores bboys do mundo, vindos das Américas, da Ásia, da Europa. Lagaet, um caribenho da longínqua ilha da Martinica, vive no Porto há cinco anos e diz, sem hesitar, que se sente português e quer pôr Portugal no mapa do bboying (foi ele o primeiro e, até agora, único a fazer-nos entrar na competição anual da Red Bull, em 2009). Afirma-o sem simpatias forçadas e numa pronúncia quase perfeita, que apenas denuncia um ligeiro acento francês e um, menos disfarçável mas mais divertido, sotaque do Porto.

 

Na véspera, não escondera o esforço para aqui chegar. Depois de ter sido o vencedor da eliminatória de Barcelona, em Julho (estava a recuperar de uma cirurgia ao joelho mas decidiu competir, contra as ordens do médico), treinou sem parar, para estar no Red Bull BC One "para ganhar". Determinação nunca lhe faltou - ou não tivesse saído da Martinica aos 18 anos, decidido a voar no bboying, com a desculpa de ir estudar Contabilidade e Gestão para uma universidade de Montpellier, em França. Já levava cinco anos como bboy, depois de ter descoberto a dança numa festa de final do ano no colégio - até aí, tudo o que tinha a ver com hip hop parecia-lhe uma moda estranha e sem piada, mas um movimento de rotação feito por outro rapaz convenceu-o em três tempos: "Quero fazer aquilo!", disse, na altura. E nunca mais parou.

 

Na Europa, começou logo a viajar e entrou de cabeça na gigantesca máquina do bboying mundial, um universo de bboys profissionais, patrocinados, com contratos assinados, que participam em competições pelo planeta fora e são convidados para dar workshops e mostrar o que conseguem fazer com o corpo, ao som do beat hip hop. Não demorou muito a aterrar em Portugal, depois de ter conhecido, num combate em Paris, um bboy português, Max Oliveira, fundador dos Momentum Crew, do Porto. Haverá razão para estranhar ter decidido ficar por cá, já lá vão cinco anos? "Adorei Portugal, fazes uma pergunta e a pessoa vai contigo nem que tenha de atravessar a rua! Gostei do ambiente do Porto, das pessoas, do clima. Encontrei uma família. Não tinha isso tudo nem no meu país nem em França. Devo muito a Portugal, onde me sinto bem e onde quero ficar. É o meu país. É um orgulho poder estar aqui a representar Portugal", diz este rapaz alto e moreno, de cabelo rapado, músculos moldados pelo treino intenso, brinco em forma de clave de sol na orelha e minúsculo piercing no nariz.

 

De regresso ao Porto, voltará a uma rotina que é tudo menos rotineira: aulas na escola da Momentum Crew, competições pelo mundo, outros espectáculos de dança, participação em acontecimentos organizados por marcas ou por ginásios (onde também ensina bboying ) e os workshops que dá pelo mundo. Em Janeiro, voltará à Sibéria, onde já esteve antes a dar aulas de bboying - sim, esta dança está a crescer por lá e Lagaet, um bboy com mais de 20 títulos no currículo, entusiasma. Em Portugal o movimento também vai crescendo, vão-se formando crews de bboys e muitas encontram-se na competição organizada pelos Momentum, a Eurobatle, que já ganhou estatuto na cena internacional (a próxima será em Abril). Também ajudou na divulgação desta dança a participação da crew de Lagaet e Max (são nove, ao todo) no programa da SIC, Portugal tem Talento.

 

O importante é não parar - até porque Lagaet não consegue ficar muito tempo no mesmo lugar a fazer a mesma coisa. Não admira que o bboying, uma dança que nunca é igual e que, de dia para dia, parece sempre transcender-se, lhe assente tão bem. Esperem por ele em 2012.

 

(excertos do artigo "Dancemos no mundo" publicado na edição nº 979 da revista VISÃO)

 

 

 

 

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